Em 2025, mais de 300.000 importadores pagaram tarifas sob uma figura extraordinária: o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). O governo de Donald Trump apresentou esses encargos como as tarifas do "Dia da Liberação", uma onda ampla e global que arrecadou mais de 200 bilhões de dólares naquele ano. Um estudo da Reserva Federal de Nova York estimou que as empresas e consumidores americanos absorveram 90% do custo. Não foi um imposto distante; foi uma drenagem direta sobre margens e preços internos.
No dia 27 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou essas tarifas ilegais. O veredicto, porém, não encerrou a questão: ele reabriu o problema onde realmente dói, o fluxo de caixa. Após a decisão, os pedidos de reembolso dispararam para cerca de 2.000 solicitações totalizando mais de 170 bilhões de dólares, segundo um relatório citado pela Fortune. E aqui surge a virada que expõe a mecânica de poder: o governo havia dito aos tribunais que os reembolsos seriam simples; agora, fontes e declarações públicas apontam para estratégias para reter ou atrasar esses reembolsos.
O que está em jogo não é uma discussão técnica sobre alfândegas. É uma pergunta desconfortável para qualquer CFO: quando o Estado cobra algo que depois é declarado ilegal, essa arrecadação se transforma em uma dívida operacional com o setor privado. E quando essa dívida tenta ser estendida “semanas, meses, anos”, como sugeriu o Secretário do Tesouro Scott Bessent em aparições na televisão e no Economic Club of Dallas, a tarifa deixa de ser um custo e se torna um crédito forçado.
O reembolso já não é um trâmite: é uma guerra de atrito administrativo
O cerne do problema é o processo. A U.S. Customs and Border Protection (CBP) opera com um mecanismo padrão de “protesto” que pode levar até dois anos. Além disso, segundo o briefing, mais da metade das entradas associadas a essas tarifas permanecem “sem liquidação” até dezembro de 2025. Na prática, isso significa um terreno fértil para dilatação: se o sistema permite longos períodos, quem controla o funil controla o caixa.
O governo, de acordo com fontes citadas, avalia fórmulas como desincentivar reembolsos, argumentar ilegalidade retroativa por meio de novas tarifas, ou até mesmo oferecer processamento prioritário em troca de que o reclamante renuncie a uma parte. Nada disso é ainda um resultado judicial; é sinalização de estratégia. E a sinalização importa porque altera decisões de curto prazo: provisões, linhas de crédito, negociações com fornecedores, cobertura de risco cambial, e, acima de tudo, continuidade de importação.
Já são visíveis os primeiros movimentos de resposta: a FedEx apresentou uma ação importante na segunda-feira, 24 de fevereiro de 2026, no U.S. Court of International Trade buscando o reembolso total; Costco e AGS Company Automotive Solutions já estavam em litígio por reembolsos. Quando empresas desse porte se movimentam rapidamente, estão dizendo algo sem a necessidade de editoriais: o custo de esperar o “caminho normal” pode ser maior do que o custo de litigar.
Neal Katyal, ex-procurador-geral interino e sócio na Milbank LLP, formulou com precisão em um texto citado pela cobertura: o governo não pode prometer facilidade para evitar uma medida cautelar e depois insinuar complexidade quando se trata de pagar. Essa frase não é um dardo moral; é um diagnóstico do incentivo. Em cenários de alta pressão fiscal, a fricção processual funciona como instrumento de financiamento.
Para uma PME importadora, isso é ainda mais brutal. Um gigante pode imobilizar dezenas ou centenas de milhões e sobreviver; uma PME que vive da rotação de inventário não. Quando o reembolso se torna incerto, o importador deixa de ser cliente do Estado e passa a ser seu banco.
O dano real para PMEs: capital de giro capturado e margens que não voltam
Em teoria, se uma empresa “passou” a tarifa para o preço, o reembolso deveria ser neutro. Na prática, a transferência raramente é perfeita: é negociada a meio, parte é absorvida para sustentar o volume, compensa-se com promoções, ou se dilui em contratos anuais. Mesmo a discordância do juiz Brett Kavanaugh reconheceu o nó: pode haver importadores que já repassaram custos a consumidores ou outros. Essa observação antecipa o campo de batalha: quem tem o direito econômico ao reembolso, quem suportou o custo final e como isso é provado.
Para PMEs, o problema não é filosófico: é contábil e bancário. A tarifa paga sob o IEEPA pode ter sido:
- Um corte direto na margem bruta.
- Um aumento temporário nos preços com queda na demanda.
- Um golpe no capital de giro devido a um inventário mais caro.
- Um aumento no custo do financiamento devido à maior necessidade de linhas.
Quando surge a expectativa de reembolso, abre-se uma janela de “recomposição” que muitas empresas já haviam internalizado como possível. Se essa recomposição é postergada, o efeito é duplo: primeiro, pagaram a mais; depois, lhes é negado o retorno que poderia estabilizar o caixa. Em termos de gestão, é a pior combinação: custo afundado e recuperação incerta.
A indústria costuma tratar as tarifas como um dado exógeno e continua competindo pelo que sempre competiu: preço, volume, negociação com forwarders, otimização da classificação tarifária. Esse manual serve quando o Estado atua como regulador previsível. Aqui, a lição é mais áspera: o risco não está mais apenas na tarifa, mas na governança do reembolso.
Essa mudança redefine o tabuleiro para PMEs importadoras e fabricantes que dependem de insumos globais. Não é mais suficiente “comprar melhor”. Torna-se estratégico desenhar operações que resistam quando o caixa fica preso em processos. O importador que sobreviver será aquele que reduzirá a exposição a variáveis incontroláveis e aumentará o controle sobre seu ciclo de caixa.
O novo campo de jogo: menos otimização aduaneira, mais design no modelo de valor
Aqui é onde vejo o erro recorrente do C-Level em empresas médias: reagem copiando o manual dos gigantes. Adicionam camadas: mais consultoria, mais relatórios, mais ferramentas de compliance, mais advogados. Aumentam os custos fixos para “gerenciar a complexidade”, justo quando o sistema castiga o custo fixo.
O movimento inteligente não é competir em sofisticação administrativa. É redesenhar o modelo para que a empresa precise menos do reembolso para respirar.
Na lógica de valor-custo, a mudança é cirúrgica:
- Eliminar a dependência de um único país ou rota para categorias críticas de importação quando essa concentração transforma a tarifa em um “evento existencial”. Não é diversificação por moda; é tirar a alavanca do choque.
- Reduzir SKUs de baixa rotatividade que imobilizam capital quando o custo tarifário sobe e o reembolso se torna incerto. Menos variedade pode significar mais sobrevivência.
- Aumentar a capacidade contratual de repassar custos com regras claras, não com “ajustes informais”. Se o custo muda devido a um evento regulatório e depois se reverte, a empresa precisa de cláusulas que permitam reequilibrar sem destruir a relação.
- Criar ofertas que desacoplem receita do volume importado: serviços, manutenção, garantias estendidas, peças locais, personalização, ou qualquer elemento onde o cliente pague pela continuidade e resultados, não apenas pela peça importada.
Esse último ponto é o grande ângulo cego. Quando uma PME depende da margem em produto importado, cada distorção regulatória atinge diretamente o coração. Quando a PME transforma parte do valor em prestação local, reduz sua vulnerabilidade a uma tarifa e, agora, a um reembolso que pode levar “meses ou anos”.
A discussão pública se concentra em se devolver é “bem-estar corporativo”, como disse Bessent. No terreno, para milhares de empresas, não é bem-estar corporativo; é correção de caixa sobre uma cobrança declarada ilegal. E mesmo que parte do custo tenha sido repassada, o dano operacional do período intermediário existiu: inventários, financiamento, contratos, perda de participação.
Esse diferencial entre o debate político e o impacto operativo gera uma oportunidade para aqueles que não desejam esperar que o sistema seja amigável. As PMEs que vencerão não serão aquelas que litigam melhor; serão aquelas que projetam um negócio que não depende de que a litígio termine rapidamente.
A vantagem duradoura será de quem projetar para a fricção, não para o “cenário base”
A decisão da Suprema Corte invalidou o IEEPA como suporte dessas tarifas, mas deixou o caminho para reembolsos nas mãos da Court of International Trade sem um mecanismo instantâneo. Nesse espaço cinza, está sendo jogada uma partida de tempo: o governo tem incentivo para estender; o importador tem incentivo para recuperar. No meio, a CBP possui um processo com prazos longos e um universo de entradas ainda não liquidadas.
O aprendizado para PMEs não é jurídico; é estratégico. A empresa que gerencia sua cadeia global como se o sistema fosse linear acaba financiando incerteza. A empresa que aceita a fricção como uma condição do mercado redesenha sua curva de valor: menos complexidade improdutiva, menos imobilização, mais receita por capacidades locais, e contratos que distribuem choques.
Isso não exige mais gastos, exige menos adoração pelo “catálogo completo” e mais obsessão pelo ciclo de caixa. Exige disciplina para cortar produtos que apenas adicionam volume sem resiliência. Exige que o C-Level pare de competir por migalhas no mesmo oceano de importadores otimizando o mesmo.
A verdadeira liderança é medida no terreno, validando com clientes e fornecedores que valor eles continuam pagando quando o custo regulatório se move e o reembolso é postergado. O resto é narrativa corporativa queimando capital para sustentar uma estratégia copiada, justo quando o mercado premia quem elimina o que não importa e cria sua própria demanda.










